Preconceito

Vestia leggins amarelas e uma camisola de lã verde-alface feita pela mãe. Para variar, era a mais colorida da turma. Naquele dia, então, era o centro das atenções — cabelo castanho, à tigela, tal qual um rapazinho. O meu pai de vez em quando tinha estas ideias peregrinas. Eu era a cobaia. Não por ser…

Na lista: Bright, Wulf e Bunyan

É quase Natal. Não costumo pedir prendas, pois não me considero prendada, nem presentes pois não é disso que sinto falta. Sinto falta da lareira acesa, dos pijamas, das farófias da minha mãe, dos coscorões da minha avó, das rabanadas da outra avó, da ginja do meu pai, das meias para os pés tricotadas da…

Cartas a Lúcia VII

Deus sabe, Lúcia, o quão eu gostava de já ter escrito algo, mas não escrevi. Não havia nada sobre o que escrever. Havia tanto para pensar ainda. E, mesmo assim, ainda te escrevo sem assunto. Escrevo por escrever. Escrevo-te da minha gruta escura, quente e escura. Desse útero acolhedor que construí para este corpo quando…

Para lá do que se ama

O meu primeiro amor chamava-se João e tinha um olho de cada cor. Vestia um sorriso branco e umas pernas bem pequeninas. O cabelo era castanho escuro e a pele bem morena. Vestia-se bem. Usava calças de ganga e camisas aos quadrados e às riscas. Eu não era muito bonita. Era cheia, tinha umas maminhas…

Tens um furo na algibeira!

A minha mãe primeiro perguntou. Depois gritou «o que andas a fazer aos bolsos?» De seguida arfou em negação «o que anda este miúdo a fazer aos bolsos?» Posteriormente, a resignação «silêncio». Já nada diz. A partir daqui ando com os bolsos rotos, esburacadinhos mesmo. Foi aí que aprendi a cozer. Era imperatório. Deveras. Remendava-os…

VI Cartas a Lúcia

Lúcia, sabes que fiz? Fui à Serra apanhar medronhos! Encontrei castanhas!, castanhas verdes. Volto daqui a duas semanas. Trouxe orégãos nas mãos e picos nas pernas. Volto entretanto… numa outra manhã fresca, branca como diamantes, matar saudades dos piqueniques com os (agora) velhos de hoje. Os antepassados inertes visitam-nos ou visitamo-los nós a eles quando na…

William Somerset Maugham

Por vezes, zango-me. Zango-me com as histórias que não leio e zango-me com as histórias que leio porque não!, não me colam os olhos ao papel! Zango-me com a falta de paixão. É por ter lido de mais? Ou por ter lido de menos? É por ser demasiado niquenta? Li «O Fio da Navalha» e apaixonei-me….

V Cartas a Lúcia

É uma da tarde. Estou de pijama, no sofá, com uma manta aquecendo-me as pernas e o computador ao colo. Leio, leio, leio. Escrevo, escrevo, escrevo. Penso muito. Tenho uma vontade imensa de viajar. Tenho uma vontade imensa de ficar sozinha no meu cubículo lendo, escrevendo e pensando. Tenho uma vontade imensa de viajar. Raízes…