Ode ao trapo

Nasce e cresce num enclave de Paris. Parte paredes, ergue ferro palácio estofado. O equilíbrio é partidário. O comércio enleva-se. O dinheiro concentra-se. Ao fim do dia, a mesa de Mouret é cama onde repousa a moeda. O Paraíso das Damas onde floresce Denise é a estufa onde Émile Zola incuba a essência do mercado moderno. O armazém, o saldo, a variedade… O deslumbre. Um malbaratar da mulher seduzida pelo pano. E a sobriedade de uma menina ingénua, humilde, que rouba o coração de um oportunista oferecendo-lhe o que ele não encontra em qualquer outra mulher — um altruísmo doce e sofrido.

Denise tenta, ao longo de todo o romance, conciliar as personalidades vincadas dos restantes personagens absorvendo a sua. E é nesta absorção que podemos ver a minúcia de Zola. Pacientemente, constrói uma mulher de garra, fiel a si mesma. Uma irmã-mãe, uma sobrinha-amiga… Uma órfã. A chama vai subindo, a labareda engrandecendo, a mulher se robustecendo. Da descrença ao carinho, da inveja oculta à derradeira submissão, o naturalista descreve o ambiente num local de trabalho em que é incentivada a competitividade. A vitória do mais forte. E o mais forte não é Octave Mouret. Não é o empreendedor apaixonado bebendo a vida a rodos porque pode mas o coração mole que tudo abarca, cuja compaixão verga até o mais vigoroso homem.

Bourras, o nobre escultor de chapéus-de-chuva. A sua história impele-o a rebelar-se. A sua idade ressente-se contra um futuro em que não acredita. E luta. Bourras luta. Sim, Émile Zola retrata o produto para consumo com descrições obsessivas, exageradas, gordas. E nesse aperto, sentimos a azáfama, a parafernália, a confusão, o luxo, o muito, o mais, a necessidade obtusa. E, entremente, a revolta do negociante local contra a vitória ostensiva do vulgar perante o singular. Bourras perde.

O contraste desse sufoco com o silêncio e o mofo das caves do tio Baudu, com a morte, com a decadência coloca-nos frente a frente com questões várias — o que é correcto? o que é justo?

Da importância dada ao contexto social francês do século XIX passamos para um palco dominado pela febre de Octave Mouret, o ciúme de Madame de Boves e a ignorância de Denise. O sentimento, embora desvalorizado, é o que afere valor ao proveito. E é aí, no findar desse edificar moroso que os meus olhos se focam, que o meu intelecto se retém. É aí, nessa intriga entretecida que a definição dessa moral elegante prospera. O amor nobre, que não sabendo amor ser, cotejado é ao amor molesto. Ambos, amores serventes, numa casa servente. Graças tornadas questionáveis dado o descrédito alimentado pela classe trabalhadora. A honestidade lida como jogo de cintura, minudente manipulação.

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