Terra dos Mucubais

Em Abril passado, voei até Luanda. E, com mais três gaiatos, de Luanda até ao Lubango, antiga Sá da Bandeira. Atravessámos a Serra da Chela pela Leba — nomeada assim em honra da Engenheira Mária Alice Leba, responsável pela construção da estrada serpenteante. Cortámos a província do Namibe até à cidade com o mesmo nome, antiga Moçâmedes. As cascatas ocultas nas escarpas doiradas, nas nuvens esfumaçantes, no verde bravio, entreviam-se em nesgas de horizonte. Na viagem de volta, visitámos a fenda da Tundavala — uma greta opressiva na rocha. Um olhar para baixo, um assombro, o banzo. Um silvo, o sibilante vento que banha a pedra alta.

Mais tarde, de visita a um alfarrabista em Óbidos, meus olhos acorreram a um livro, um singelo livro — Tundavala: a oeste do Cassinga, do Engenheiro português Álvaro Rego Cabral, publicado em 1971 pela Sociedade de Expansão Cultural. Na capa, escrito a lápis, o preço — quatro euros! Demos as mãos e caminhámos juntos desde então.

Na altura, uma consulta me surdiu.

Tinha 19 anos e 19 diários. E jogos de lógica, uma gaveta cheia. Entrei no consultório de Algés, um pouco perdida, para variar. A Adélia sorriu-me e disse-me algo, algo tão simples como «O curso não é um fim, é um meio para atingir um fim. Quem disse que não podes ser engenheira e escrever?»

Fez sentido.

Quando, pela primeira vez, abri estas páginas me detive onde raramente me detenho — no início (ou quase). Ai Eu!… Ai de mim se não te lesse nem relesse mais do que uma vez. Duas, três… As considerações de um engenheiro que queria ser escritor. Diálogos que, numa gradação fervente, esmiudam a técnica — o engenho como precursor da arte, a arte como precursora do engenho.

Em seguida, Cabo Verde — africanismo europeu, europa mestiça, singular cultura, cultura iletrada, literacia povre. E a morna como um fado insulano, uma nostalgia dançada. Rego Cabral vira contador de histórias. Contradiz levianas deduções sobre o povo, casa paradoxos deste. Namora o país resiliente, as memórias íngremes.

Angola. Comboios. Linhas de Comboio. Angola.

Luanda. Sá da Bandeira. Moçâmedes.

Rego Cabral descreve um carregamento massiço de minério. O mineraleiro imenso, o tempo estipulado no contrato curto, os vagões muitos, os trabalhadores poucos. A probabilidade ansiosa. Os indícios de um desastre iminente. E o desastre. O descarrilamento sucessivo das composições. E a resposta. A realidade subjacente e o realismo.

Entrementes, uma descrição romântica do Namibe. E o conforto do trabalhador como encargo, o contraste, o encontro com o mucubal e a constância da dúvida — porquê ser nómada?

— O quê, blanco!?… Ficá semple nos memo, memo sito?!… (…) Pará!… E antão o mundo, blanco? Sim, o mundo?… (…) As casa… blanco, é túmulo dos vivo.

Povo Mucubal — Tribo herero que habita no sul de Angola, na província do Namibe.

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7 Comments Add yours

  1. ola, vou acompanhar o seu blog com muito interesse! 🙂 Nunca ouvi falar do Tundavala mas parece que vale a pena dar uma leitura poi ai, obrigada!

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    1. sofiafsantos diz:

      Boa tarde. Muito obrigada pela partilha e pelo comentário 🙂 Também nunca tinha ouvido falar do livro, tão pouco do autor, encontrei-o, por acaso, num alfarrabista em Óbidos. No que diz respeito ao local, vale a pena uma visita. Faz-nos sentir pequeninos. E, se por lá passar, experimente lanchar no Le Challet, a caminho. Os iogurtes e queijos caseiros são qualquer coisa 😉 Cumprimentos!

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  2. KAMBAMI diz:

    Interessante descrição sobre os Mucubas, irei pesquisar mais a respeito. “Mucu” em alguns dialetos bantu referem-se a ancestralidade, dai o cumprimento muito usado “mukuiu ua nzambi” apenas substituindo o “c” que não faz parte do kimbundu.👍😉

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    1. sofiafsantos diz:

      Não sabia 🙂 Interessante. O povo é deveras curioso. Principalmente os mais idosos. Os mais novos abordam, normalmente, com o intuito de pedir algo… dinheiro, material escolar e afins. Os mais velhos não. Talvez o contraste em vez de os assustar, os fascine (de uma forma saudável). Se puder, algum dia, travar um conhecimento com eles, mais aprofundado, na base da humildade e do interesse na sua cultura, penso que não se irá arrepender. Pela minha experiência, eles até que gostam de falar 😉

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      1. KAMBAMI diz:

        Sei disso por experiências com outros como os Lembas.👍😉

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      2. sofiafsantos diz:

        Mas que bem 😉 São mesmo povos especiais. E é uma benção essa possibilidade de contacto pois duvido que a sua existência condicionada pela sociedade moderna prospere de acordo com as características ímpares dos seus valores e cultura.

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