Quando o rouxinol canta

Vim a casa. Entrei no autocarro, paguei bilhete, sentei-me. Abri-o. O livro. Preocupava-me com Isabelle. Preocupava-me com Vianne. Uma desgraça nunca vem só, dizem.

Foi a primeira vez que li algo da Kristin Hannah. Como costume, escolho os livros a dedo, de autores sobre os quais pesquiso. Este, contudo, foi-me oferecido. Céptica, corri os parágrafos um a um, indagando o seu mérito. Não é uma leitura densa, não tem um vocabulário excepcional, nem tão pouco uma sintaxe particularmente original. É, sim, uma história que toca, de tão próxima que se torna.

As guerras partem almas que, no alheamento, estilhaçam famílias. Afastam gente que se ama, dos modos que mais doem. Ainda o sangue não sarara, já outra guerra o corrompia — a 2.ª Grande Guerra.

Ou assim parecia.

A injusta fortuna desperta a humanidade do povo. Haverá sempre miséria pior. A compaixão impele mais que o medo. A morte nossa não assusta. Jamais.

Este é o flagelo dos resquícios de uma família heróica, à sua maneira. Protegem-se mesmo quando guerrilham, entre si. Na procura de aceitação e de amor dão mais do que têm, tudo o que são. Sobra pouco. Abatem-se a tiro os julgamentos convictos. Estão sós. E, não estão.

A inconsequência e a indulgência andando a par. A paz, a pulso.

Rouxinol é o nome de código de Juliette Gervaise, Isabelle, jovem imprudente que ajuda os pilotos caídos em França a atravessar os Pirinéus até Espanha. Vianne é quem, impelida pelo exemplo da irmã mais nova, salva crianças judias dos campos de concentração. O seu pai é aquele cujo perdão, seu e dos seus, é o próprio sacrifício.

O bom alemão, o mau francês. Os estereótipos retalhados expondo um contexto social bem mais rico do que aquele que ideamos.

E o amor. Aquele que vem de dentro, das entranhas. Aquele que nos revira o ventre.

Como poderia olhar para ele? Estava careca, era um esqueleto sem sobrancelhas, sem vários dentes e sem a maior parte das unhas. Tocou na cabeça, apercebendo-se já tarde de mais que não tinha cabelo para aninhar atrás da orelha.

Vianne beijou-a no rosto.

— Estás linda — afirmou.

A consolação de sabermos vivos aqueles que nos atearam fogo, que instigaram labaredas. E o ir… em paz, com Deus.

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