O tempo que voltou atrás

Lembro-me de sair de casa. Dirigir-me ao autocarro. Dirigir-me à escola.

Lembro-me de roer as unhas. Esvoaçar. De ouvir. De estar calada. Lembro-me de me sentir cansada. Do medo do riso dos outros. Lembro-me de não saber contar segredos. E de não os querer por não ter onde os guardar.

Lembro-me das portas que fechava, dos livros que abria, dos diários que acabava. E escondia. Em cima do guarda-roupa. Lembro-me de, mais tarde, me sentir superior (talvez para dar algum sentido ao que de trás vinha).

Uma sobrevivente (ou qualquer coisa assim parecida).

No que conto, o escárnio e maldizer são tidos como vulgar comportamento dos outros. A roupa molhada, de propósito, os livros a bater na cabeça, de propósito, os beijos roubados, propositados romances com menos românticos propósitos. O ciúme que não entendia. E a inveja que às vezes sentia de não estar no meio. Sempre fora. E, hoje, penso — e eu? Seria eu, também… vulgar?

Que sabia eu da vida, eu que vivera com tanto cuidado? Que não ganhara nem perdera, mas só deixara que a vida me acontecesse? Que tinha as ambições comuns e me adaptara demasiado cedo a que elas não se realizassem? Que evitava ferir-me e chamava a isso capacidade de sobrevivência? Que pagava as minhas contas, estava de bem com toda a gente na medida do possível, mas para quem o êxtase e o desespero depressa se tornaram meras palavras, lidas outrora nos romances?

Adrian deslocado estava e, como qualquer deslocado, deslocava-se a fim de postar-se não muito longe do meio (contando que longe), a fim de não soltar o fio que o prendia ao mundo.

Adrian lera Camus. Lera sobre o absurdo, sobre o suicídio*. E filosofava. Perigoso para os outros, ameaça à sua lógica. Liberdade para dentro da cabeça de quem demasiado pensa.

Adrian apaixonou-se, como os jovens se costumam apaixonar. Sem meio-termo, por quem não esperava. Adrian apaixonou-se. E, escolheu fazê-lo a termo certo. Um pensador reservado, um solitário. O mais inteligente, apreciam os amigos.

E o livro, é sobre Adrian? Não e sim. Adrian é o que move a história e a prova de como nem sempre o que pensámos que fosse, era. É a prova de que desejos têm força. Uma paciente força.

Julian Barnes, felicito-te! Algo no que escreves nos faz repensar o que nas nossas memórias escrevemos. Julgar torna-se fácil quando o objectivo primeiro é evitar sentimentos demasiado intensos. Embalançados, perdemos o equilíbrio. Atirados ao mar, perdemos o pé. Uma construção soberba, simples e sagaz. O livro flui e sensações pungentes afluem. Argumento após argumento, consideração após consideração, consequência após consequência. Imaginem um fio de missangas que se parte e que voltamos a reconstruir… dispomos as contas com uma nova ordem — uma nova lógica.

Como se reformula a História? E, de que é feita a História?

[Adrian] Queremos culpar um indivíduo, para que todos os outros sejam ilibados. Ou culpamos um processo histórico, como forma de desobrigar os indivíduos. Ou é tudo um caos anárquico, com as mesmas consequências. Parece-me que há — houve — uma cadeia de responsabilidades individuais, todas necessárias, mas não uma cadeia tão longa que todos possam culpar todos os outros.

E é isto. Verdades possantes sobre o que passou que desposamos e não afastamos, assim, sem reserva. Perseverança. E, autopreservação.

* Livro — O Mito de Sísifo, Albert Camus.
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