Mambos, mô camba.

Primeiro dia de aulas, dos cinco aos vinte e cinco, dos oito aos oitenta. A pele de galinha, o discurso tremelicoso, o suor pegajoso, nas mãos, nos pés, no pescoço. E o último dia… os «até um dia» de fim próximo versus os «até jás» sem fim à vista.

Ondjaki recua, recua no tempo com o corpo, salvaguardando a maturidade da alma. Fala de desenhos que são de armas, de redacções que são de guerra, de professores que são de Cuba, de candengues que são de Angola. De miúdos com medo que são miúdos sem medo.

Bom dia Camaradas é a moldura do retrato que falta à maioria. O contraste que concebemos e não reconhecemos, não estamos à altura de compreender de tão alto que estamos posicionados. As senhas de racionamento, a postura ante O Presidente:

«A minha tia saiu do carro, deixou a porta aberta. Fiquei mais descansado, embora ela parecia que não estava em sentido. O pior foi que quando os carros já estavam mesmo perto, ela pôs a mão dentro do carro para apanhar o chapéu. Tia, não!»

Este ano, também tive o meu primeiro dia de aulas. Encontrei-me com uma amiga que, dadas as vicissitudes da vida, teve de parar de estudar. Era o primeiro dia de aulas dela, uma miúda inteligente, de excelentes notas no Secundário. Trabalhara, pagara a casa, juntara dinheiro, voltara a estudar. Vai às aulas todos os dias. Provavelmente será quase trintona quando tiver o canudo. E?

Não desenha metralhadoras nos tempos livres, nem pedincha cunhas. Dá, quando não tem. Abre a porta de casa. Com orgulho. Nela.

Às vezes me pergunto se o sucesso não será isso mesmo — resistir.

Ir às aulas quando se sabe de antemão poder ser alvo de tiros perdidos. Contornar o degredo e chupar da miséria o alimento da resiliência. Viver numa semi-guerra, numa semi-paz, numa semi-crise, num mundo no todo injusto, sendo connosco justos.

Não escravos, não máquinas, não parasitas porque a elite se moveu nos modos que lhe aprouveram melhor. Fazer por saber que tenho valor mesmo não sendo diplomada na profissão de excelência do meu século, em menos tempo que o previsto na sua constituição. Fazer por saber que ninguém sabe tudo.

Crendo nisso, penso estuda até morreres, Sofia.

E estudo, porque gosto. Porque é belo o planeta que sonho correr de lés a lés. São delicadas as suas leis. Lendo Ondjaki, sofro a beleza da Luanda desolada entranhada na pele daqueles que lhe resistem. A paz está na alma. O seu conhecimento de sobrevivência nos genes, superando em muito o meu. Respeito.

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5 Comments Add yours

  1. Sofia, escreve de um modo pessoal, imbricando a literatura na alma. Parabéns.

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    1. sofiafsantos diz:

      Obrigada, Luís, pelas suas palavras ^^

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  2. patgfaria diz:

    É sempre tão bom ler o que escreves <3! Um grande beijinho!

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  3. sgramalho diz:

    Ainda não li este do Ondjaki mas agora fiquei com vontade de ler 🙂

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    1. sofiafsantos diz:

      É pequenino, lê-se bem e rápido 😉

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