Sangrado Solo

16 de Outubro de 1998 — A Scotland Yard detém Augusto Pinochet Ugarte, em Londres, a mando do juiz espanhol Baltasar Garzón por «crimes de abuso dos Direitos Humanos».

Trinta anos depois Luis Sepulveda re-conta a História como a sua história em O General e o Juiz. E tenta juntar de novo a água ao café coado, sentir-lhe o sabor que foi servido a quem não lhe sabia dar valor. Uma experiência neoliberal ou uma ditadura?

O autor junta peças, monta-as e remonta-as e questiona-se: porquê se jogou um jogo em que só um sabia as regras?

Porque os mais fortes as ditavam, e o fantoche a encenava, e mais vaidoso ficava, o ego pando teve de subjugar para pando ficar. E do povo se abusou. E do povo se esqueceu.

Eu faço outra pergunta: porque é que as pessoas não confiam que são elementos modificadores de regras e criadores de mudança? O voto é no mau ou no menos mau porque não há nenhum não mau para ser votado. Parece que quem é bom não se chega à frente porque está ocupado a remediar o que o mau levou à frente. Há uma humildade subjacente. Uma frustração latente. Uma moral periclitante.

«Na realidade, as eleições presidenciais consistiram em decidir entre: ou as coisas ficam como estão, com alguma possibilidade de melhoria para os ricos, ou as coisas ficam com estão, com muitas possibilidades de piorarem para os pobres.»

Descrédito, frustração, apatia? O povo temeroso fecha-se, sai à rua, revolta-se na cama, revolta-se na taberna, mas não age. Quer acreditar que a educação é ferramenta de desenvolvimento mas não tem ferramentas para providenciar essa mesma educação. As elites cortam os pés. E andamos. Cortam as pernas. E andamos. Cortam-nos as asas. E voamos. Há locais onde a maldade não chega.

Sepúlveda não concede o perdão. Nem o esquecimento. Pega no Chile retalhado e acrescenta-lhe pano. Forra-lhe a roupa com tecido mais quente, mais forte. Sepúlveda é um patriota que encontra as memórias perdidas e as devolve à terra, ao solo sangrado.

«Nós, chilenos, adoramos os diminutivos talvez por vivermos num país demasiado longo, sermos poucos e o calor dos diminutivos nos fazer sentir menos sós.»

O nosso povo é a nossa família alargada. Partilha a nossa língua, a nossa arte, a nossa tradição. O emigrante quase sempre parte com esperança de voltar, não só para a mãe e para o pai, como para o seio das almas que pegaram nos seus ao colo. Cada vez mais confio que quem não sabe amar não sabe comungar. E quem não sabe comungar nunca saberá o que é pertencer.

Pertencer-se a um país, mesmo que longe, é dar o corpo e o espírito pela elevação de uma nação abatida mas não esquecida. Nunca esquecida.

Para quem foi: Voltem sempre.

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