(A)temporalidade do Pinguim

Tantas vezes ouvi: Antes não era assim.

— Era como?

Contem-me os pormenores do que não é e eu verei na causa o que criámos para quem veio depois. Contem-me como era e eu verei o que tiveram que vos permitiu assim ser. E verei que quando vocês foram, não foram o que vossos pais esperavam que fossem. E tudo advém das mutações do que há que atirou para o lado o que, por fim, deixou de haver.

N’A Ilha dos Pinguins o que não era passou a ser porque, por discernimento de Deus e Santos, era mais fácil se assim fosse. Nesta ilha, os pinguins tornaram-se homens por baptismo. Nada sabendo, conheceram o pudor e a volúpia na roupa, o desejo e a inveja na posse, tornando-se no que foram, desde que a raça se reconhece. Nesta ilha, criou-se um Governo por em outras ilhas Governos se verem.

De algo novo, nasceu algo velho..

«Quanto ao Governo, revelava a fraqueza, a indecisão, a moleza, a incúria habituais a todos os governos e de onde nenhum saiu senão para se lançar no arbitrário e na violência. Em três palavras, não sabia nada, não queria nada, não podia nada. Formoso, no fundo do palácio presidencial continuava cego, mudo, surdo, enorme, invisível, cozido ao seu orgulho como a um edredão.»

Lembro-me de no meio da leitura, fechar o livro e mirar a capa. Anatole France, em que anos viveste tu? Em que dias escreveste esta obra, sim, tu? Pois sinto-me assoberbada, pois sinto-me arrancada do conforto da crença na mudança do povo. Em que época viveste tu senão em todas? O que escreveste há cem anos, hoje reconheço. Será sempre assim, não importa o que façamos? As revoluções suceder-se-ão? Os interesses egoístas não definharão? O humano seguirá a matilha porque sim? E a curiosidade, a justiça, onde vive? Esconder-se-á? Por indefinido tempo? Será?

Tinha 15 quando tive Filosofia pela primeira vez. Um dos temas explorados foi a Liberdade. A minha professora de então, culta, dura, exigente, falou-nos do que é ser livre. E explorou o conceito no contexto do concreto — Se não aprendesses a jogar futebol, mesmo que o quisesses jogar, não saberias como, não o farias. Se não aprendesses como fazer um bolo, mesmo que o quisesses fazer, não saberias como, não o farias. Se não aprendesses a ler, mesmo que quisesses ler um jornal, não saberias como, não o farias. És tanto mais livre quanto mais conhecimento albergas em ti. Por isso é livre o pensador encarcerado, não o sendo o ignorante sem grilhões.

Anatole France, pseudónimo de Anatole Thibault, filho de um negociante de livros parisiense, bibliotecário do Senado mais tarde, respirava livros, expirava poesia em verso, em prosa. Lia, e era livre. Ele lutou para que os outros fossem livres. Escreveu. Criticou. Contudo, não será frustrante essa ânsia de trazer bem ao mundo quando o Homem não vê o bem e a fortuna como uma criação humana mas sim como uma dádiva divina?

Até quando?

As previsões do autor materializaram-se. E as nossas não terão fundo de verdade?

«Os ricos constituíam uma pequena minoria, mas os seus colaboradores, que eram todo o povo, eram-lhe inteiramente afectos ou estavam inteiramente sujeitos a eles.

[…]

Quanto aos operários, que trabalhavam nas fábricas, a sua decadência física e moral era profunda; simbolizavam o tipo de pobre determinado pela antropologia. […] Os proletários revelavam-se cada vez mais débeis de espírito. O enfraquecimento contínuo das suas faculdades intelectuais não se devia apenas ao seu género de vida, resultava também de uma selecção metódica operada pelos patrões.

[…]

A intermitência da produção, inerente ao regime capitalista, causava tais crises de desemprego que, em vários ramos de indústria, logo que a greve era declarada, os desempregados ocupavam o lugar dos grevistas.»

Se se receia, porque não nos perguntamos, mais alto, até quando?

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