Cuidar.

Não, tu, avô, não tiveste Alzheimer. Tiveste Parkinson e, sem tremer, enfrentaste-a de frente. Agarraste a doença pelos cornos e deste-lhe um abanão. Não, não tremeste.

Lembras-te do último dia em que te visitei? Sentei-me ao teu colo. A Beringela resmungou um pouquinho, a avó resmungou muito. Obriguei-te a comer dois gomos de laranja, e comi-te os bolos de amêndoas (quase todos). Lembras-te do que falámos? Quiseste que discursasse acerca do meu curso, querias saber se tinha futuro, se conseguiria perseverar sozinha, sem ti. Eu não te respondi.

Prometi-te que ia acabar o curso. Disse-te que tinha trabalho, que não te preocupasses. O que me davas era mais do que precisava. Quis que prometesses que te voltaria a ver. E tu esboçaste um sorriso e apertaste-me a mão. Sem tremer.

Antes de partir, sentámo-nos no alpendre. Tu, no teu cadeirão. Dei-te um beijo e pedi-te uma outra vez — prometes? E uma outra vez, não prometeste. Nesse fim-de-semana pediste que te levassem ao centro. Num sábado disseram que não irias dormir em casa. Na segunda de manhã disseram que não acordarias. Nunca viveste numa casa que não tua. E não quiseste aí adormecer. Porquê? Tu sabias. Sabias tão bem. Tu previste. E te preparaste. Eu não estava preparada.

Deste-me a Matemática e os Livros e a eles recorro quando te quero mais perto.

Sabes, no dia do teu funeral passei a tarde a jogar matraquilhos com a Carlota. Sabes, na manhã a seguir ao teu funeral fui à faculdade cumprir a promessa que te fiz. Sabes, a seguir sentei-me no banco da igreja mais perto e chorei. Agarrei na tua foto e chorei.

Quem me dera ter cuidado de ti. Ter cuidado mais de ti.

A tua tristeza nascia da tua lucidez.

Emílio perde lucidez. Emílio é o personagem principal deste livro, sabes? E ficou sozinho, recebendo visitas da família ao domingo. Miguel, apresentou-lhe o lar e apertava-lhe o colarinho. Era ele o lúcido que, ao ver a lucidez esvair-se dos mais próximos, deixou de «ser» sozinho e cuidou. Escreveu o nome da camisola quando camisola se tornou vago. Desenhou camisola nas etiquetas das camisolas quando as letras se tornaram vagas. Deu de comer. À boca. Somos crianças duas vezes, dizem. Na última, conscientes da dignidade que decai.

Miguel — Isto é uma merda… Temos de fazer alguma coisa, aproveitar estes últimos anos de vida. Vamos ficar aqui a dormir e a jogar bingo enquanto esperamos pela morte?

Emílio — O que é que queres fazer?

Miguel — Sei lá, mudar o mundo. É uma missão demasiado importante para ser deixada aos jovens. Eles já têm muito em que pensar, com o sexo e as drogas…

Antónia — Miguel. A demência veio-te toda de uma vez! Deixa-me lembrar-te que somos velhos, por isso é que fazemos coisas de velhos.

Quando vim para a faculdade, quando entrei para a Cruz Vermelha, passava as terças-feiras num Centro de Dia. Tinha amigos lá. Amigos de 70 anos, 80 anos. A dona Alice não sabia ler mas não se descosia. Topei-a. A dona Francisca andava sempre maquilhada e adorava os livros que lhe levava. O senhor Manuel era cego mas tinha bom ouvido. Sabia os fados de cor. Dava-lhes lanche. Lanchava com eles. Fazíamos rimas. A dona Alice aprendeu a escrever o seu nome. A dona Francisca arranjou namoro com o senhor João. Safada. A dona Alice morreu. Somos temporários. É isso.

Porém, lembras-te quando a mãe me levou a fazer hipnose? Havia pessoas sentadas no meu espaço interior. Indaguei a Telma — Quem eram? E a Telma disse que, de acordo com as suas posições e cores, apostava serem pessoas, familiares provavelmente, que zelavam por mim. De vez em quando medito. Menos vezes que as queria. E estás lá. Sentado à mesa. Contudo, não é a mesma coisa. Tu sabes, não sabes? Não é a mesma coisa.

Serei velhota e lerei este livro muitas mais vezes. Inúmeras vezes. Relembra-me a fragilidade humana. Lembra-me o quão somos sensíveis. Lembra-me de cuidar.

Perdoa-me pela sinceridade que transborda. Esta é a maneira que tenho de cuidar de ti.

Se quiser este livro na prateleira lá de casa, vá a Rugas — WOOK.

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4 Comments Add yours

  1. Lucie diz:

    Voei no tempo, há três anos atrás… Mal sabia eu que iria dizer adeus à avó com quem vivi 20 anos. Não sei se a Carlota é tua prima, só sei que no dia do velório da minha avó, a minha prima Mafalda quis ir comprar uma bola e ir jogar para o parque mais próximo o Vale do Silêncio… Será que há qualquer coisa de sereno em tentar acertar na bola, marcar ou não marcar, o importante não é ganhar é ocupar a mente… Visitar memórias… Rir, libertar as memórias ao vento como se vê na capa…

    Que saibamos honrar as promessas, o legado, a vida…

    Beijos nesse coração*

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    1. sofiafsantos diz:

      É a minha sobrinha. É com os seus oito anos a morte é algo tão longínquo que quando chega perto é tratada como estranha. Afastada. Ele sabe que há pessoas que não voltará a ver mais. Mas sabes o que a deixou triste? A tristeza de quem está à volta. Quando és criança, o definitivo ainda é uma escolha… 🙂 Acertar na bola é uma escolha. Eles escolhem o imaginário. As pessoas não desapareceram. Mudaram de lugar. E nos adultos impingimos muitas vezes essa despedida. Será mesmo uma despedida? Será que eles, miúdos, sentem no como uma despedida? Tenho dúvidas.

      Beijinho meu doce*

      Gostar

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