Presenças mudas

Entre épocas de saúde e recaídas, dez anos «disto» (uns com medicação, outros sem) é, digamos, um número considerável. Os últimos são os mais produtivos, os primeiros os mais seguros.

Porque redijo sobre d e p r e s s ã o? Simples. Porque quando chego a casa e digo que entrei em pânico e me sabotei, o que espero ouvir são gestos mudos, como os meus pais aprenderam a fazer, a muito custo, eu sei (não pensem que não vos admiro).

Sem medicação, penso mais nítido, cogito mais rápido, memorizo tudo de um trago, sou invencível, apaixonada, a força da natureza em all-stars esburacadas. Com a medicação sou normal. Amena. Como o tempo. O tempo que se fica. Por isso, a tiro: para não me ficar. Sentir a pungência, o domínio da energia das coisas sobre nós é uma benção.

Se assim é, porquê a medicação? Atentemos em algo prático, do quotidiano.

Aula. Avaliação oral. Logo no início fui avisada que o raciocínio operado tinha o sido sob premissas mal fundamentadas, com a devida justificação do juízo. Não me fazia sentido a observação, contudo, (abre a mente, Sofia) tentei re-raciocinar. Cortaram-me o pensamento a meio. Pedi —Deixe-me acabar. Com a melhor das intenções, a professora disse-me que não e tentou-me explicar onde estava a errar. Pedi —Deixe-me acabar. Não. Nesse momento, deixei de ouvir. Só soube dizer que sim e olhar em frente. Cerrei os dentes. Pensei — A professora irá pensar que sou mal-educada. Não quero que ela pense que sou mal-educada. Anui — Já percebi, disse. Contudo, ela leu nas entrelinhas aquele meu pequeno dogma. Ponto assente: eu estava focada em desfazê-lo, mas em cinco minutos (talvez mais, a minha noção de tempo deturpa-se com a ansiedade), não estava a achar tal uma tarefa fácil.

Ela tentou ajudar. O relógio — tic, tac, tic, tac. Compassado. Ordenado. Concentra-te.

Só queria sair dali. No virar da hora, só pensava em como sair dali… da forma mais rápida. Um estertor a adensar-se e eu, amedrontada, a equacionar mil e uma maneiras de obter silêncio. Estava a sentir-me vulnerável. Tudo tomava proporções que não tinha. E às tantas, deixei de lutar com a raiva. Os olhos marejados haviam há muito me denunciado. Não conseguia ouvir, a sensação de sufoco obrigava-me a concentrar-me no lado que ninguém vê… o lado de dentro. A ansiedade era tal que o isolamento era o remédio, e eu precisava dele como se precisa de água num deserto.

À despedida, ela convidou-me a visitá-la no gabinete… queria ajudar-me, disse-me que sabia que eu tinha potencial. Potencial? Aquela palavra que oiço desde sempre — Tens potencial. O que fazer com ele? [Sem resposta]. A impotência consegue, por vezes, ser menos castradora que o p o t e n c i a l.

Senti-me pequena. O meu auto-domínio nas ruas da amargura.

Saí. Fui para casa. Martírio. Só pessoas na rua. E eu que só queria estar quieta, em silêncio. Era tudo uma cacofonia. Fora e dentro. Às tantas começo a contar passos (ajuda a impor ordem). Um, dois, três, quatro… Quando cheguei, o alívio, o respirar fundo.

Quando parei… Estava envergonhada, aterrada. Olhei-me ao espelho, arranjei o cabelo, vi lixo. Sabia que não era lixo, mas via lixo. Pensei — Vou falar com ela, pedir-lhe desculpa. Deve ter achado o meu finca-pé uma falta de educação, sobremaneira. No fundo, só aspirava sair dali, só queria que se calasse. É isso, só queria que se calasse. Não porque não queria aprender, mas porque em menos de dois segundos o pensamento lúcido, claro, fora anulado, e eu não sabia, literalmente, como tomar decisões racionais. Via os sintomas de [voilà] uma flagrante crise de ansiedade! E, se me deixasse ir? Supunha não haver boa-fé que me valesse — o meu inconsciente entraria em modo sobrevivência e o meu comportamento seria, na visão do outro de mim, no mínimo, descontextualizado. A sobranceria como tábua de salvação e a percepção de descortesia como consequência.

Ninguém quer ser vulnerável a qualquer um. Somos vulneráveis ante os que amamos, não ante os transeuntes do dia-a-dia. Sem medicação, tu és vulnerável ante todos. Desenvolves mecanismos de auto-protecção e defesa. O problema é que… não sabes muito bem prever quando é que isso vai afectar o teu comportamento na presença de variáveis não controladas. Faltas a eventos importantes quando «achas» que há a possibilidade de perderes o controlo sobre ti. E isso é aterrador porque tu és um ser social, e o que os outros vêm não é a falta de ar, o que os outros vêm é algo com que não sabem lidar, algo estranho. Não obstante, na maioria dos casos, estes «outros» são seres prestáveis e proactivos que, na prossecução da moral e dos bons costumes e, se não muito tímidos, iniciam um discurso amigável de cariz motivacional. E aqui o lavar pratos de uns é o partir da louça de outros. O indivíduo que sofre de depressão persevera. Sente-se aprisionado e, se não se retira, ouve para não ferir susceptibilidades. Pretende que ouve. Ele vê a porta, ele imagina o canto que lhe é mais querido e teletransporta-se. Quando se vê solto, é automático: só pensa em fugir para um lugar onde ninguém o veja, ninguém lhe ligue, ninguém o constrinja a pensar.

Há uma necessidade primária de nos reorganizarmos — deixar a raiva contra nós mesmos fluir em razão de a seguir voltarmos à carga… mais frustrados, porém mais humanos, mais amigos de nós mesmos.

Contudo, é também nesses momentos que pensamos em fazer connosco o que, provavelmente, nunca faríamos com ninguém — magoar-nos. Sim, isso faz parte do raciocínio «ser mais amigos de nós mesmos». É um castigo auto-infligido [Eu sou um fardo que não quero que o outro carregue — eu sou responsável por mim mesmo]. E é aí que quem nos ama entra. Ter presente a vossa imagem — não o vosso corpo, a vossa imagem — é uma chamada de atenção para o egoísmo nas nossas presunções.

De todas as pessoas com depressão que conheci todas eram pró-outro. Todas eram empáticas, davam sem esperar agradecimento de qualquer tipo e/ou forma. Esperavam, genuinamente, fazer, através dos seus actos, com que o outro se sentisse bem. Isso não é porque nós, deprimidos [é um estado não momentâneo, mas limitado, se Deus quiser], temos uma «necessidade patogénica de atenção» como muitos querem fazer crer. Pelo contrário, uma pessoa deprimida tem medo daquele momento em que tem de erguer a voz para pedir ajuda. Uma pessoa com depressão sente o que é não sentir e isso é tão debilitante que ver os outros caminharem para o mesmo materializa-se num apelo ao heroísmo.

São as pessoas que desinteressadamente amam que alimentam a nossa vontade de ser melhor e de trabalhar [o psicológico] para ficarmos melhor. Basta a vossa paciente presença muda. 

Como término: assusta quando o pensamento corre mais rápido que a lucidez até que, esbaforido, se espraia.  Por isso, por favor, não digam — tem calma. Se perdessem o controlo do vosso consciente, calma seria a última coisa que vos pareceria passível de ter.

Como a ajuda se encontra em qualquer lado, aqui estão livros que, em algum momento da minha vida, foram verdadeiros companheiros de armas.

O Mito de Sísifo, Albert Camus

Siddhartha, Herman Hesse

O Erro de Descartes, António Damásio

On Balance, Adam Phillips

A Saga de um Pensador, Augusto Cury

O Alquimista, Paulo Coelho

Intenções, Oscar Wilde

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3 Comments Add yours

  1. Reconheci no seu texto a tesoura que nos poda, a vontade de querer ser uma flor, desabrochar mas ninguém ver pois está embaixo da sombra da depressão, aonde ninguém quer chegar perto, mas muitos moram. Obrigada por dividir suas experiências. Por aqui também busco forças pra não ver só espinhos.

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    1. sofiafsantos diz:

      Use-os para o bem. Os espinhos ajudam as rosas a defenderem-se de predadores de modo a que possam desabrochar. Um lugar-comum, é verdade, mas nem por isso menos digno. O que tem de valor está lá e, mesmo que ninguém o veja, a arte é um eficiente mecanismo de o revelar. E o desporto um valoroso método de lidar com. Não precisa ser a melhor do mundo, nem melhor do que é, só precisa ser você e irá ser a melhor versão do que alguma vez foi 🙂 Acredito em si — isso é acreditar em mim também, certo?

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  2. Certo! Obrigada por suas palavras. Vamos que vamos.

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