III Cartas a Lúcia

Por vezes faço horas num restaurante. Sirvo às mesas, lavo copos, corto o pão. Sirvo. Um dia, o dono incentivou-me a trazer os meus amigos de infância, os meus companheiros de viagem na adolescência. Não os tenho, respondi. Ele estranhou. Toda a gente tem. Eu não, eu não os tenho. Não preservo um grupo, preservo um molho de seres que posso contar pelos dedos de uma mão. As vezes que os vejo por ano podem contar-se também elas pelos dedos de uma mão. Cada um desses encontros não é breve e não é celebrado com um jantar. São cafés, imperiais, amendoins e grelhados nos lugares que foram e são a nossa casa. Por vezes paro pensando na panóplia de parênteses com que agracio as pessoas. Na panóplia de reticências que acrescento às horas que nos separam. Sei que muitas sentem-se em espera. Mas, enganam-se essas pois (eu) estou em espera, esperando a hora sem constrangimentos para nos deliciarmos sem o toque do despertador. Valeria a pena apressar quem não desistiu de esperar também? Não são esses os que nos querem bem?

Lúcia, este é para quem ama e para quem luta, mesmo que, no seu contexto devido, por outra causa que não a nossa.

Confidência

de Mia Couto em Raiz de Orvalho

«Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios

sopra-o com suavidade
de uma confidência

para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome»

Para ti,
To the dancers in the rain — Emilie Simon

Com um beijinho,
Sofia.

P.S.: A carta anterior da Lúcia está aqui — II Cartas a Sofia.

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