Maria-rapaz, José-rapariga

Férias por tempo indeterminado (quase) — tempo para pôr em prática projectos idealizados e redefinir objectivos. Prestes a começar uma nova etapa, passo horas no computador a estruturá-la, a conferir-lhe sentido, a dar-lhe propósito. E é nestes lapsos de tempo que de tão livre me sinto uma gaiata nos seus quase trinta e uma gigante com asas, sem chão onde pousar. São as possibilidades, o batalhão delas esgrimando, esgrimando, esgrimando… Uma Maria-rapaz a amanhar terreno, uma José-rapariga a tomar posse da cozinha. Um montão de livros para ler e quilos de fruta para colher. Pontos de interrogação que começam enquanto outros acabam.

Por isso, hoje, não por não ter lido livro algum, mas por, anos atrás, ter lido inúmeras vezes o mesmo, decorando-lhe as falas e as gravuras, relembro Enid Blyton (crendo esta dispensar apresentações). Os Cinco e a Ilha do Tesouro foi sem dúvida o livro áureo do tempo em que a minha idade se resumia a um algarismo.

Ter uma ilha minha, encontrar um tesouro… não vamos longe: andar de barco sem adultos por perto já era, por si, uma pretensão algo ambiciosa. Porém, era possível, fazia sentido e era possível. Era um optimismo que tomei mais tarde por ingenuidade. Ao recomendar livros para a minha sobrinha — garota que fala sozinha por uma família inteira —, lembrei-me do quanto eu acreditava. E, tal como não a acho ingénua, por que razão ainda descrevia o meu eu passado como isso mesmo? Talvez me tenha tornado pessimista, cogitei, e isso não é bem a mesma coisa que ser ingénua, pois não?

Pessimista porque não encontrei tesouros? Quem sabe. Pessimista porque não tive as mesmas aventuras? Provavelmente. Contudo, não obstante as diferenças, aventurei-me, sim, por uma ribeira com alfaias abandonadas, por fazendas em pousio, por armazéns desprezados. Andei de bicicleta por estradas sabe Deus onde ficam. Afinal, tive e tenho amigos como o Júlio, o David, a Ana e a Zé. Afinal até um Tim, tenho. Dois para ser precisa.

Então, como justifico a falta de brio na visão? É que… não há falta de sonhos. Ainda não há falta de sonhos.

«— Ó Tim — murmurou a Zé, meio adormecida, quando o sentiu junto dela. — Tim, nós cinco vamos ter mais aventuras, não vamos?

E tiveram! Mas só as saberão se lerem as outras histórias.»

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