Dolce Far Niente

Ontem foi o aniversário de um amigo. Um jantar numa tasca amorosa de ambiente acolhedor. A conversa, leve e fresca, alongou-se até se prender, momentaneamente, no bico de obra que é a educação dos filhos (que não tenho). Cientes das teorias que fomentam regras, hábitos e cuidados higiénicos exacerbados, nós, fazendo uso da confiança do…

III Cartas a Lúcia

Por vezes faço horas num restaurante. Sirvo às mesas, lavo copos, corto o pão. Sirvo. Um dia, o dono incentivou-me a trazer os meus amigos de infância, os meus companheiros de viagem na adolescência. Não os tenho, respondi. Ele estranhou. Toda a gente tem. Eu não, eu não os tenho. Não preservo um grupo, preservo…

II Cartas a Lúcia

Lembras-te do domingo em que decidiste organizar um chá das cinco? Estavas nos trinta e querias viajar — tinhas aquela chama, prenúncio de re-invenção. Querias que te ajudássemos a escolher, nem tu sabias bem o quê. Sonhamos que somos para, mais tarde, não sermos e, quando paramos para re-avaliarmos-nos, temos fome. Fome e sede.  E…

I Cartas a Lúcia

Um poema por semana foi o que prometi a Lúcia. Um poema por semana foi o que Lúcia me prometeu. Preito de Almeida Garrett em Folhas Caídas «É lei do tempo, Senhora, Que ninguém domine agora E todos queiram reinar. Quanto vale nesta hora Um vassalo bem sujeito, Leal de homenage e preito E fácil…

Bibliotecas Itinerantes

Biblioteca. Segundo a definição do Dicionário Aberto, uma biblioteca é uma «casa ou lugar, onde se depositam livros, para uso público ou particular». O meu quarto é uma biblioteca — de uso público. E ouço, amiúde, críticas à prontidão com que empresto, ou dou, os manuscritos que me aquecem as estantes. Sim, custa-me largar tanto…

Presenças mudas

Entre épocas de saúde e recaídas, dez anos «disto» (uns com medicação, outros sem) é, digamos, um número considerável. Os últimos são os mais produtivos, os primeiros os mais seguros. Porque redijo sobre d e p r e s s ã o? Simples. Porque quando chego a casa e digo que entrei em pânico e…

Cuidar.

Não, tu, avô, não tiveste Alzheimer. Tiveste Parkinson e, sem tremer, enfrentaste-a de frente. Agarraste a doença pelos cornos e deste-lhe um abanão. Não, não tremeste. Lembras-te do último dia em que te visitei? Sentei-me ao teu colo. A Beringela resmungou um pouquinho, a avó resmungou muito. Obriguei-te a comer dois gomos de laranja, e…

(A)temporalidade do Pinguim

Tantas vezes ouvi: Antes não era assim. — Era como? Contem-me os pormenores do que não é e eu verei na causa o que criámos para quem veio depois. Contem-me como era e eu verei o que tiveram que vos permitiu assim ser. E verei que quando vocês foram, não foram o que vossos pais…